A culinária na maioria das vezes é fator de estranhamento entre culturas que se encontram. Mudar para o RS não era grande problema. Sabíamos do churrasco. Não seria problema. Exceto pelo fato que é humanamente impossível passar todos os dias à base de carne e arroz de carreteiro.
Imáginavamos que, sendo fato sabido que o churrasco é apreciadíssimo no sul e era apreciadíssimo por nós, o restante da dieta gaúcha seria basicamente parecida com a nossa.
Acertamos em parte, como vim a descobrir um dia em que recebemos a visita de um primo meu e sua garota, logo depois de mudarmos.
Bateu aquela fome da tarde e não havíamos almoçado, o que transformava a fome da tarde em uma fome substancial. Fomos, meu primo e eu, atrás de um inocente X-salada. Oras, que diferença poderia haver num x-salada paulistano e um x-salada gaúcho?
Íamos pela Protásio Alves, ali perto do Hospital de Clínicas, quando avistamos um desses trailers de lanches. Sentamos e pedimos, inocentemente, para a simpática proprietária, um x-salada, caprichado na maionese.
Observamos o preparo e começamos a estranhar. Por que ela estava pondo milho? O que ela estava fazendo com o pote de ervilha na mão? QUE PÃO GIGANTE É ESSE MEU??
Pedimos explicações.
- Ué moço, tu pediu um x-salada, tou fazendo. Quer ovo?
- Ovo?!?!
Achamos melhor explicar a situação. Veja só minha senhora, somos seres de outro planeta. E não estamos familiarizados com o cardápio de lanches local. Por exemplo, como se faz x-bacon?
- Igual a esse, só que com bacon.
- Quer dizer, com tudo o que tem nesse. E bacon?
- Sim guri.
- Uaaaau…
Não preciso dizer que foi um parto comer aquele lanche imenso.
Paulistanamente, o “x” é basicamente hamburguer e queijo; x-bacon é a adição de bacon, x-egg de um ovo, e assim sucessivamente, permitindo inclusive combinações como o x-bacon-salada, etc.
Anos depois, descobri o lugar definitivo pelo menos para mim, em termos de lanche: o Cavanhas.
Conheci aquele original, da Perimetral, e fiquei estupefato em ver que o lanche podia vir acompanhado de um pequeno Everest de fritas em cima. O garfo e a faca vinham equilibrados por cima de tudo… sensacional!
Outro grande ponto é o Cachorro-Quente do Rosário, que quando conheci já era point dos laricados da madrugada. Foi a primeira vez que perguntei se tinha garfo e faca pra comer um cachorro-quente.
Ouvi uma lenda de um lugar perto do Beira-Rio que apelidaram carinhosamente de “Roda de Carreta” em alusão ao tamanho do lanche, basicamente um PF enfiado dentro de um pão escavado e depois prensado. A lenda diz que qualquer um que conseguir comer um inteiro leva outro, absolutamente grátis. Que vantagem né? Tipo: “vai lá Pedrinho, é tua vez de comer um lanche daquele e trazer o outro pra família.”
Algo me disse para evitar passar por lá.
Leo Carvalho é paulista, mantém o blog Boteco do Leo e conta aqui alguns causos do tempo em que era cidadão porto-alegrense.