A rodada da Libertadores dessa semana só veio a coroar o atual estado dos dois grandes da cidade, deixando claras as razões pelas quais a vida do torcedor deve ser dura nos próximos meses. Os colorados já começam a se acostumar com a idéia de que o atual Campeão do Mundo, depois de ter caído na mais dura chave do campeonato, não deve passar da primeira fase. Com seu time disputando vaga com outros de qualidade bastante duvidosa, gremistas ainda podem sonhar com a possibilidade de uma ida à segunda fase, ao menos para garantir mais uns dólares no cofre do banco.
Internacional
A vitória acachapante do Vélez Sarsfield, nesta quarta-feira, mostrou um Inter sofrendo do mesmo problema que lhe custou o Gauchão do ano passado: Abel Braga. Seu contrato com os deuses do futebol parece que só ia até Yokohama, e é nítida a falta que fazem alguns jogadores-chave que deixaram o time depois da conquista do ano passado.
Quando todos davam como certa uma escalação com três zagueiros, vieram a campo apenas Índio e Wilson. Na armação, Michel e Gabiru, dois atacantes de origem jogando fora de posição e completamente perdidos, tendo que servir a um Fernandão ainda vergonhosamente fora de forma e um pobre Iarley, que pouco podia fazer nesta situação.
Como resultado, uma repetição da final do Gauchão de 2006, quando Abel também escalou quatro atacantes para tentar abafar o Grêmio: um meio-campo esvaziado, incapaz de criar algo para seus atacantes. Some a isso um time nervoso com a necessidade de vitória (Ceará levou um amarelo aos nove segundos e, junto com Wilson, saiu no lucro por não ter acabado expulso), e com 20 minutos de jogo o time argentino já ganhava por dois gols de diferença.
Para que ninguém duvidasse de sua convicção com o esquema tático, no intervalo Abel tirou Adriano e Iarley para botar, respectivamente, Alexandre Pato e Christian, transformando o lento Fernandão em armador. Criou-se um pouco mais de correria no ataque, devido à garra dos dois jogadores, mas o problema tático permanecia, bem como a superioridade do Vélez. Aos 35 do segundo tempo, o golpe de misericórdia de Escudero selou a goleada.
Em terceiro lugar com um ponto a menos e um jogo a mais que o Nacional, sobra aos colorados torcer por uma improvável vitória do fraco time do Emelec no próximo dia 22, para ficarem vivos na competição. No Gauchão, a campanha é igualmente fraca e o time corre o sério risco de também ficar pela primeira fase.
Grêmio
Embora tenha um plantel obviamente inferior ao grande rival, o Grêmio parece ter problemas bem menos complicados de resolver para se tornar um time que faz bonito diante da torcida. Em especial, paga os dividendos de ter sido armado em volta de um tipo específico de jogador e, subitamente, se ver sem ninguém para ocupar direito essa vaga.
Mano Menezes, ao contrário de seu colega no Beira-Rio, fez sua fama em torno de times com jogadores limitados mas bem armados. Mesmo com o time que conquistou a Segundona, no entanto, ele sempre pôde contar com um jogador diferenciado para criar situações de gol. Em 2005 foi o garoto Ânderson, ano passado foram Hugo e Léo Lima, o qual deveria repetir o papel neste início de 2007, enquanto o Grêmio gastava em jogadores para posições mais deficitárias.
Com a incapacidade do jogador de se comportar como uma pessoa civilizada, no entanto, Mano subitamente teve que montar um time sem nenhum jogador diferenciado para a armação. A solução encontrada foi largar o pepino no colo de Tcheco, que já demonstrou mais de uma vez não ter pique nem porte para jogar tão adiantado. Isso somado à lesão de Tuta, que se não é um centro-avante brilhante pelo menos mostrou ter o famoso faro de gol neste início de temporada, fez o Grêmio virar um time que toca muito a bola mas pouco cria.
É o que se tem visto desde a lesão de Tuta, e foi o que aconteceu nesta quinta-feira, em sua primeira derrota da temporada, diante do fraco Tolima. Com mais uma desastrosa apresentação de Tcheco, que em certos momentos do segundo tempo teve problemas até para dominar a bola, o tricolor simplesmente não conseguiu criar oportunidades para se aproveitar da insegura zaga colombiana e do péssimo goleiro Julio.
Ainda que tenha falhado no lance do gol, ao espalmar uma bola para frente, Saja foi essencial em evitar que a derrota fosse maior e, junto com William, foi o mais perto que o Grêmio teve de um destaque na partida. Outra coisa que tem chamado atenção no time é sua apatia, a falta de alguém que grite com os colegas, empurre o time pra frente e mostre garra.
Por ora, a classificação do Grêmio à próxima fase ainda parece bastante possível, mesmo com a derrota de hoje. E no Gauchão, mesmo sem grandes apresentações nos últimos jogos, o time permanece sendo suficientemente superior ao resto e já garantiu sua classificação.
Mas enquanto depender de Tcheco como cérebro e criador, deve continuar a causar nervosismo nos torcedores, e a contusão de Kelly não dá muito espaço para esperanças de uma solução em breve. O surgimento de algum verdadeiro líder dentro de campo, por sua vez, também não seria ruim - minha aposta é nos argentinos Saja e Schiavi, assim que vencerem a barreira da língua e estiveram mais entrosados com os colegas.
