Matisyahu @ Pepsi On Stage - 30/01
A primeira vez que ouvi falar em Matisyahu foi em 2005, depois de um show seu em Nova Iorque que rendeu uma enxurrada de resenhas positivas em lugares como Rolling Stone, NY Daily News, MTV e outros. Mesmo sendo um agnóstico com um certo pendor pelo ateísmo, e achando reggae um dos estilos mais propensos a criar música ruim, acabei vencido pela curiosidade e tratei de arranjar seu Live at Stubb’s.
Não precisei passar da segunda faixa, Chop ‘em Down, para reconhecer que aquela mistura de reggae, rap e música folclórica judaica era realmente excepcional. Mas também fiquei mal acostumado, porque Matisyahu parece ser daqueles artistas que só atinge toda sua força ao vivo.
Assim, foi com bastante empolgação que recebi a notícia de que o nova-iorquino iria tocar em Porto Alegre. Embora o preço (R$ 50) fosse bastante justo, não gostei da escolha do Pepsi On Stage como local para o show. Primeiro, pela qualidade do som que deixa bastante a desejar (justiça seja feita, com exceção de teatros, Porto Alegre não tem nenhum local para show que tenha um som aceitável). E segundo por achar que um lugar com espaço para 6 mil pessoas era um pouco grande demais para o evento.
Meus dois receios acabaram se confirmando: Matisyahu já não tem uma grande voz, e a equalização do som do local tornava impossível para quem não conhecesse as letras entender o que ele cantava. E o público estimado em 1,5 mil pessoas acabou sendo muito pouco para o local, provavelmente ajudando a esfriar um pouco a apresentação (além de deixar os cambistas absolutamente atolados em ingresso).
Afora estes detalhes inconvenientes, quem foi ao Pepsi On Stage foi brindado com um show excelente, mas que não chegou a ser tão bom quanto eu esperava.
Com a adição de um extraordinário percussionista e um tecladista, a banda está ainda mais coesa do que nas apresentações que já tinha ouvido pela rede. O repertório foi irretocável, especialmente as baladas, onde Matisyahu parece especialmente capaz de fazer transições de momentos mais calmos para a explosão em versos e batidas mais pesadas.
Outro detalhe interessante, e que achei bastante legal, foi ver a celebração de sua religião por parte da comunidade judaica porto-alegrense. Além do rabino Mendel Liberow, que assumiu o papel de guia do cantor na cidade, via-se bastante gente com quipás na cabeça, inclusive muitos jovens empunhando bandeiras de Israel e Jerusalém. É sempre bom ver este tipo de demonstração alegre de uma identidade.
O detalhe que faltou, no entanto, mesmo com esta demonstração de orgulho por parte da comunidade judaica da cidade, foi aquela ligação do artista com seu público que acaba fazendo um show deixar de ser bom e passar a ser fora de série.
Talvez pela barreira da língua, Matisyahu praticamente não se dirigiu à platéia. Parte do público também não cooperou, como um grupo de idiotas torcedores do Grêmio que ficou gritando canções de futebol enquanto o cantor fazia sua demonstração de beatboxing - na qual ele é muito bom, diga-se de passagem. E por fim, imagino que o palco alto, a distância da platéia e o pouco número de pessoas para um lugar tão grande, também tenham influenciado para a pouca interação da banda com a platéia.
Em certos momentos, como quando Matisyahu começou a dançar em uma mistura de dança tradicional judaica com os passos característicos do reggae, ou quando cantou o sucesso Youth, a platéia pareceu parar de se preocupar em tirar fotos e fazer filmagens em celulares e câmeras digitais, balançar suas bandeiras ou entoar gritos de futebol, e passou a interagir mais com o que acontecia sobre o palco. Mas, infelizmente, passava logo depois.
No fim, tratou-se de um show muito bom, de um cantor e uma banda muito acima da média que costumamos ver aqui em Porto Alegre. Inclusive, sei de quem acabou indo ao show de Erlend Øye e disse que provavelmente teria se divertido mais se tivesse ido ver Matisyahu. Mas já tendo ouvido outras apresentações do cantor em clubes menores em seu país natal, não pude deixar de pensar que se tivesse sido em outro local (como o Opinião), o show teria sido muito melhor.
Agradecimento especial ao fotógrafo Marcos Nagelstein, de Zero Hora, por ceder algumas fotos do show que não foram utilizadas pelo jornal. Para conferi-las em seu formato original, confira a nossa página no Flickr


