Passava cinco minutos das 17h, quando dobrei a esquina da João Manoel com a rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre. Imediatamente, voltei minha atenção em direção à Casa de Cultura Mario Quintana, procurando sinais de zumbis. Por duas vezes fui enganado pelos emos que costumam freqüentar o local aos fins de semana, mas enfim encontrei-os. Algumas noivas, um que outro cientista com o guarda-pó ensanguentado (um até com crachá da Umbrella Corporation), além dos organizadores do evento, com suas camisetas oficiais.

   

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Minha expectativa era de que houvesse mais jornalistas e curiosos do que zumbis, de fato, na versão porto-alegrense da Zombie Walk. E num primeiro momento, foi o que aconteceu. Mas logo começaram a aparecer as pessoas devidamente paramentadas, quase todas saídas dos banheiros da CCMQ, onde um maquiador profissional tratava de deixá-las com um visual adequado à situação. No fim, segundo estimativas dos organizadores, 350 pessoas participaram da caminhada, entre zumbis, acompanhantes, mídia e curiosos. Minha suspeita é de que pelo menos 200 zumbis se arrastavam pelas ruas da cidade.

Pouco depois das 18h, os mortos-vivos começaram a caminhada. Na rua dos Andradas, os comerciantes fechavam as lojas, moradores se trancavam atrás das portas de entrada dos prédios, enquanto a criançada seguia o séquito extremamente interessada naquela passeata um pouco improvável. A presença de alguns zumbis coveiros, munidos de pás, acabou levando os organizadores a abortar a idéia de atravessar o shopping Rua da Praia, e acabaram subindo a Caldas Júnior (e atacando carros, motos, lotações e ônibus que atravessavam seu caminho) em direção à Praça da Matriz.

No coração administrativo do Estado, cercados pelo Tribunal de Justiça, a Catedral Metropolitana, a Assembléia Legislativa e o Palácio Piratini, a Zombie Walk mostrou a que veio: os zumbis se divertiram ao subir as escadarias da praça se arrastando, ou sendo atacados por estátuas e seguiram lépidos e faceiros pela av. Duque de Caxias. Não houve nem quem pensasse em convidar o governador Germano Rigotto, praticamente um morto-vivo à espera da troca de guarda no Piratini, a se juntar ao grupo.

Chegando à escadaria da av. Borges de Medeiros, nova indecisão por parte da organização em relação ao itinerário acabou dividindo os zumbis em dois grupos, que acabaram descendo por ambos os lados. Com os gritos de “miolos! miolos” e “aarrrghhh!”, ou os berros ensuredecedores de meninas zumbis, os moradores saíam às janelas de suas casas para ver o que acontecia. Quem passava de carro, sem fazer idéia do que se tratava, buzinava como se comemorasse a vitória de seu time no Brasileiro de futebol. Os mais curiosos perguntavam o que acontecia aos que estavam à paisana. A resposta, curta e grossa, era a mesma: “zumbis”.

No Largo dos Açorianos, uma pausa para retomar o fôlego. Alguns zumbis carregavam garrafas de Coca-Cola ou água mineral, compradas em paradas estratégicas em bares ao longo do caminho. Os únicos incansáveis eram os matadores de zumbis, vestidos como segurança de shopping ou o típico redneck norte-americano, que sempre se punham à frente do grupo, derrubando a tiros os zumbis que chegassem perto. Logo que a caminhada recomeçou, no entanto, um deles se viu preso sobre uma árvore com algumas dezenas de zumbis tentando desperadamente alcançá-lo.

Dali, o séquito seguiu pela Perimetral até o Parque Farroupilha (ou Redenção, para os mais chegados), com direito a parada para tirar dinheiro no caixa eletrônico do Banrisul ou para dizer a um senhor, sentado na parte de idosos de um ônibus que esperava a passagem dos zumbis, que “sua hora já está chegando e, logo, você vai estar entre nós”. No parque, confraternização com macacos presos no mini-zoológico, a perseguição de algumas crianças assustadas e uma foto oficial com todos os participantes em frente aos “arcos do triunfo”.

Por fim, a caminhada pela José Bonifácio até o ponto final da empreitada, na Cidade Baixa. Ao passarem em frente ao Zaffari da Lima e Silva, depois de mais de duas horas de caminhada, a tentação de cerveja gelada e amostras grátis de champanhe acabou sendo demais para os zumbis, que invadiram o supermercado e decretaram o fim da Zombie Walk Porto Alegre. Mas uma hora mais tarde, ainda era possível ver alguns zumbis espalhados pelos bares do bairro, comendo um xis e tomando cerveja.


vídeo do meu amigo Leandro Belloc;
mais vídeos e fotos estão disponíveis no site oficial da Zombie Walk.