
Em frente à histórica Banca 40, no Mercado Público de Porto Alegre, está uma banca dedicada às bebidas. A ênfase é aos vinhos da serra gaúcha, mas é possível encontrar uma razoável seleção de vinhos argentinos e chilenos, alguns exemplares do resto do mundo e os clássicos destilados (uísques, bourbons, vodkas e quetais).
A Banca 38 sofre dos mesmos males comentados no post sobre supermercados: garrafas acomodadas em pé e à mercê do calor e iluminação locais. Assim, mantenho as mesmas precauções anteriores sobre quais tipos de vinho comprar ali.
O interessante do local é que os preços variam bastante em relação aos supermercados, que me parecem sua competição mais direta. Certos vinhos, que freqüentam a lista de mais vendidos do Zaffari e Nacional - como o quase onipresente Casillero del Diablo - acabam saindo mais caro aqui, provavelmente pelo menor fluxo de produtos. Mas opções um pouco menos óbvias, especialmente de argentinos e brasileiros, acabam valendo muito à pena.
Enfim, trata-se de uma alternativa mais do que justa aos supermercados, especialmente para quem mora e trabalha na região ou está indo ao Mercado Municipal por alguma razão. A dica do momento é procurar os vinhos da safra 2005 da serra gaúcha, que começam a chegar às lojas: com a seca que abateu o Estado no ano passado, esses devem ser os melhores vinhos brasileiros em muito tempo.
Dica abaixo de R$ 40
Elos - Cabernet Sauvignon / Malbec 2005 (R$ 38,00) - Os vinhos brasileiros sofrem de um problema sério: todos deveriam custar uns 15% mais barato do que custam. Com enormes impostos federais sobre bebidas alcoólicas, os produtores brasileiros têm que fazer milagres na tentativa de competir com seus similares argentinos e chilenos.
Em geral, a competição é injusta: os hermanos produzem vinhos muitos superiores pelo mesmo preço. Mas como a Banca 38 é dedicada aos vinhos gaúchos, e estando diante de uma safra potencialmente diferenciada de nosso vinhos, acabamos achando justo sugerir o Elos, da vinícola “boutique” Lídio Carraro, que tem angariado opiniões muito favoráveis mundo afora.
Como o nome sugere, esta série busca demonstrar as vantagens da mistura de dois varietais, neste caso o Cabernet Sauvignon (80%) e o Malbec (20%), os dois mais festejados da América do Sul. Os potentes taninos do Cabernet misturados ao “tempero” do Malbec fazem uma mistura digna de nota, mas acho que há uma certa deferência excessiva ao corpo magro deste.
O Elos merece, se possível, uma meia hora em um decantador para que todos os aromas do Cabernet possam aparecer. Trata-se de um vinho surpreendentemente complexo para sua faixa de preço e para um vinho do novo mundo, mas acaba falhando num quesito que costuma deixar a desejar também em nossas cervejas: aftertaste. No entanto, a mistura dos toques florais e picantes do Malbec com os potentes taninos do Cabernet fazem deste um vinho bastante satisfatório e ótimo para acompanhar uma carne vermelha bem temperada, que faz aparecer todo o potencial do Malbec.
É um pouco caro, mas com a produção de apenas 3.350 garrafas e todo o preconceito que costuma rondar os vinhos brasileiros, é uma ótima opção para quem quiser variar um pouco os chilenos e argentinos de sempre. Pode, também, ser uma ótima maneira de alguém começar a entender como a idéia de diminuir os impostos para os produtores de vinho brasileiros poderia criar produtos dignos de nossos vizinhos argentinos e chilenos.